Entro vagarosamente, tentando esconder os meus ruídos, sem bater...
… a chave estava na porta, tal como disseste que estaria, numa espécie de convite prenunciado para conhecer o teu universo, o teu espaço íntimo, as paredes onde penduras as tristezas da alma. Rodei a chave, ao mesmo tempo que virava a cabeça e olhava para o céu, tentando imaginar como estarias do outro lado da barreira física, do único obstáculo que bloqueava o caminho que me conduzia a ti. Fixei as estrelas que consegui observar nos intervalos das nuvens, talvez, assim, uma espécie de mapa, como se estivesse à procura de um caminho seguro que me levasse até ti.
Entro e conquisto a tua atmosfera onde acredito ser possível conseguir desvendar-te os segredos e amenizar os teus medos. Retiro a chave e coloco-a por dentro da porta, fechando-a, devagar, na escassa esperança de que as dobradiças velhas não denunciem a minha invasão. Fico ali, parado, com o casaco no braço, estranhado por momentos, a admirar, a observar, a contemplar cada canto incrivelmente bem decorado ou preenchido, cada sombra de luz, cada pormenor colorido de bom gosto! Penduro o casaco numa cadeira antiga, revestida de pele gasta, testemunha de muitos acontecimentos, castanha, solitária, abatida pelo tempo, provavelmente utilizada para os últimos aperfeiçoamentos quando abandonas o teu ambiente e te deixas apreciar pelo mundo. No móvel da entrada vejo um papel, um bilhete, escrito por ti e antes de lhe dar atenção olho para o espelho, ajeitando o corpo, tentando encontrar o melhor ângulo proporcionado pelo candeeiro de luz quente, para me antever. Para me sentir bem. Confiante e seguro! No bilhete está escrito: “Sobe as escadas! Aguardo-te no quarto mas se não puderes ficar sai de mansinho, sem deixar marcas, e deixa a chave no lugar…”
À medida que vou subindo as escadas de madeira, sinto-me a entrar no teu labirinto. Cada degrau alcançado faz um som distinto como se fossem teclas de um piano abandonado. Com a mesma segurança com que progrido penso, com convicção assumida, o quanto desejo ocupar os teus espaços vazios. Os teus momentos sós que completariam, seguramente, os meus momentos desacompanhados. Antes de chegar ao quarto começo já a ser invadido pelos cheiros que me são familiares, pelo teu perfume, e paro! Fecho os olhos e inalo esse perfume tentando deliciar-me novamente com a recordação do momento em que o senti, a primeira vez, quando me beijaste na boca. Fiz um quadro dele, quando me invadiu o corpo e arrebatou! É uma deliciosa moldura que fixei na minha memória. Abro os olhos e espreito pela janela antes de avançar para ti. Lá fora, um lago de águas pacíficas reflecte a lua gorda enquanto esta, à medida que a noite vai avançando, se aproxima cada vez mais do horizonte. Abro essa janela para a felicidade, para deixar entrar a frescura da noite. Avanço novamente até que chego finalmente ao quarto. A porta está ligeiramente aberta, deixando escapar alguma luz, empurro-a e entro…
Repousas, ainda, dormindo, semi-tapada no sofá, com as costas voltadas para a lua que vai espreitando o teu corpo! A janela encontra-se aberta porque a noite está quente e abafada! À medida que me vou aproximando tento descobrir-te as tonalidades da pele que apenas o candeeiro da cabeceira abrilhanta. Sento-me no chão do quarto e fico ali, parado, feliz, a sorrir pelo facto de estar, naquele momento, ao teu lado. Levanto o braço e, com a mão, percorro-te, sem te tocar, as costas desnudas e sensuais. Deixo-me estar assim mais um instante, pois desejo prolongar o máximo possível a oportunidade de te ter perto de mim. Mas a paixão que sinto por ti é mais forte e inclino-me para te beijar os ombros! Porque o desejo fazer de uma forma louca e apaixonada!
Sou interrompido no momento em que quase acordas! Não quero que me vejas… tenho vergonha do que possas ver, que desvendes os meus segredos…
Não quero, não consigo, enfrentar o teu olhar! Resta-me a esperança de te poder revisitar numa outra noite… E saio, de mansinho, deixando-te a dormir, agarrado aos meus medos mas com a agradável recordação de ti, deitada na cama, semi-nua, aquela linda imagem a ocupar-me os espaços vazios da memória, deixando a chave no lugar …

7 comentários:
Ou seja, anda na sombra? Ofuscado pelos seus impostos limites?
( vim aqui para perguntar PORQUE RAIO RETIROU O LINK QUE ME COLOCOU NO BLOGUE, AQUELE DO PORTO!!! ;_; Ok, pronto, lá estou eu a ser bruta... vim aqui para lhe pedir que recoloque o link... porque era tão lindo e eu já não o encontro... ;_; please? )
É apenas uma história, Dark, apenas isso...
Foi um engano! Ja enviei o link, novamente.
Obrigado
As histórias também contam muito de nós. Basta estar atento às entrelinhas...
Muito obrigada pelo link :)
Boa semana*
Sim, concordo!
Todo o que escrevemos, por muita ficção que seja, tem sempre um pouco (ou muito) de nós mesmos, da nossa experiência!
Obrigado, Dark Angel, para ti também!
;-)))
Devo dizer-lhe que gostei muito da história, está muito bem escrita e é interessante. Um envolvimento entre duas pessoas que não se tocam, nem se vêem mas que se gostam. Adorei:)
Adoro a forma como escreve...
Vou voltar! obrigada :)
Obrigado, Mónica!
Volte sempre. Eu prometo ser mais assíduo na colocação de novas histórias!
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