A trovoada atroadora faz-se ouvir, manifestando a sua presença intimidatória lá fora, enquanto os raios poderosos caem na água! Sente-se a vibração, arrastada pelo ar, nas paredes da casa. Daniela e Gonçalo interrompem um beijo fugaz quando, confortavelmente sentados no sofá, quase unidos num abraço, um relâmpago perdido rasgou o céu do lado de lá das janelas da sala seguido de um som rouco, intenso e prolongado.
Era um final de tarde de Outono, intensa e vigorosamente carregado da malfadada humidade, cinzenta no seu arco-íris de cor, fustigada pelo vento que chegava do mar, do Atlântico, e que trazia consigo o sabor salgado característico deste elemento da natureza. O vento chegava com a certeza reveladora, absoluta, do poder que exerce sobre a baía, plantada nas suas encostas, com casas de pedra cinzentas, frias, como se nunca tivessem estado expostas ao calor dourado do sol.
Dentro de uma dessas casas, pintada de cor âmbar e amarela no seu interior e aquecida pelo estalar da lenha seca dentro de uma lareira que ficava no lado oposto às grandes janelas de vidro, Daniela e Gonçalo tinham encontrado o seu refúgio. Pela primeira vez, depois de meses que se foram sucedendo a meses, de sonhos que se foram sucedendo a sonhos, de desespero em desespero, estavam a ver a vida acontecer. A vida de ambos estava, finalmente, a ser escrita em conjunto, como se de uma só história tratasse. A história que ambos tanto desejavam! Sentiam que tinham o mundo na mão! Sentiam que estavam a ver um novo dia amanhecer! Como se um novo luar, diferente, sem dúvida, de tão desejado, estivesse para chegar e o pudessem simplesmente ver em vez de o olhar apenas! Mas não, não era! Era apenas uma ilusão, um castelo no ar…
Gonçalo tinha ido viver para Vigo à procura de paz. Paz e tranquilidade que não encontrava em Braga, sua terra Natal, onde, na sucessão normal dos dias a sua vida andava coberta por uma nuvem cinzenta que, durante vários meses, não se precipitava nem ganhava furor repentino com o objectivo de se transformar numa verdadeira tempestade. A sua casa era das primeiras na cosmopolita zona do Parque das Avenidas, voltada para a baía, um prédio com as fachadas em pedra e enormes janelas de vidro, combinando em estilo e beleza com os restantes edifícios da zona envolvente. Mesmo em frente localiza-se a Marina e o Real Club Náutico de Vigo, com o seu belo edifício azul e branco. Ao lado, as piscinas fazem as delícias de quem as frequenta. A avenida, agora sem trânsito automóvel, com um passeio enorme, em pedra, e belos jardins com relvados cuidadosamente tratados, permite que se possa viver a cidade e aspecto depauperado ou duvidoso é, sem dúvida, aquilo que não se vê naquele pedaço de civilização. Uma das suas actividades preferida é, ao final da tarde, ficar à janela, a meditar profundamente, na mais memorável das experiências, a contemplar o pôr-do-sol, o crepúsculo e a noite a chegar num panorama inigualável, o mar, com as Ilhas Cíes bem lá ao fundo, já em pleno Atlântico mas, ainda assim, suficientemente perto para lhes poder adivinhar as formas., enquanto o astro rei esparge os seus últimos raios de luz. Lentamente os reflexos do astro rei vão desaparecendo no horizonte, criando no céu valsa na luminosidade feérica das cores. Num desses dias, diante de tamanha maravilha, movido por um impulso de admiração exclama: - Oh! Como é belo o pôr-do-sol! - Porque o final da tarde traz em si uma beleza juvenil que a noite, com toda a sua experiência, e o dia, ainda na sua infância, não podem oferecer. – É inigualavelmente belo! – Repete.
Ele, que desde que aqui se instalou, sentia os sonhos serem levados por aquelas águas como se estas, sem perdão, lhe cobrassem o facto de ele se arriscar vertiginosamente pelos seus sentimentos. Sentimentos que eram de ambos, de amor e bem-querer, e que se intensificaram pelo tempo mas, infelizmente, estavam ao sabor das ondas, sem essência, sem a inquietação natural e enfadonho, talvez, ainda magoado pela decisão de Daniela, numa incredulidade, ou, então, inexprimíveis, como se sentisse o corpo transformar-se, liquidificar-se, abrir-se, não desejando nada mais do que um beijo demorado, impregnado de energia!
Raros eram os dias em que Gonçalo não suspirava profundamente como se só um abraço pudesse dar-lhe alento. O tempo começava agora a adoçar-se, a acalmar à medida que os minutos iam, um a um, sendo mandados embora de forma apressada. Mais, até, do que ele compreenderia ou desejava que acontecesse. A luz suavizou-se um pouco e já existem sombras na rua provocadas pelos candeeiros antigos, de ferro, ainda de luz amarela e muito quente, que, entretanto, já tinham sido ligados. Como o calor, também os sonhos são levados pelo sol, pelo mar, pelas ondas, e a cor leva-a o céu. Gonçalo já não sonhava, aqui, e queria acreditar em tudo quanto a vida lhe deixara sem sentido.
No entanto, aquela final de tarde de Outono, deixara-o a novamente a pensa que, se o tempo não passar, era nos braços dela, junto a Daniela, que ele queria ficar…

7 comentários:
Pode continuar...a história promete.
Maria, vamos ver...
Já tinha esta história escrita há algum tempo e, acredite, comecei mesmo a escrevê-la em Vigo, em Abril!
Preciso de alguma tranquilidade emocional e quietação física para lhe dar continuidade que é coisa, confesso, que não tenho tido ultimamente.
Amigo...não me vais deixar em suspenso...e o resto? Afinal sempre tens aquele dom...pratica-o...
Fernando.
Tanto tempo...de espera!!!
Será que ainda não encontrou a sua tranquilidade...?
Aguardo com expectativa a história do Gonçalo e da Daniela :)
P.S : E penso que o Fernando também...
Fernando,
Estás a marinar na minha cabeça!
Abraço
Maria,
Será que alguém vive tranquilo?!??
Há-de sair, um dia destes...
:-)))
Ainda aguardamos a continuação que o belíssimo princípio prometeu...:)
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