domingo, 27 de junho de 2010

O paredão


O dia insistia em manter-se quente e abafado! O vento que soprava do Sul trazia ainda o aroma do deserto, seco e com o doce sabor africano. O final de tarde apresentava uma luz típica de um olhar de Verão, deliciosamente pintado pela cor âmbar e rosa do pôr-do-sol. Nesse dia o mar estava incrivelmente calmo, com uma serenidade raramente observada nestas águas do Atlântico.

O paredão, desde o areal até à beira da água, enchia-se de gaivotas e alguns veraneantes que passeavam, desfrutando do encantador crepúsculo que se fazia anunciar. A água, nesta altura específica do ano, raramente sobe acima do meio das escadas de acesso ao mar e a temperatura dificilmente ultrapassa os dezoitos graus centígrados.

Pedro estava algo nervoso e sentia aquele frio na barriga, sensação que já não experienciava há algum tempo, desde a adolescência provavelmente, onde a sua vida, mais do que qualquer outra coisa, se mantinha num estado de interrupção. Observa as aves que fazem voos que mais se assemelham a uma dança assombrada, numa marcha ligeiramente desalinhada, ocasionalmente interrompida por mergulhos no mar na tentativa invisível, mais ou menos discreta, de aproveitar o efeito da liberdade de sustentação provocada pela brisa marítima.

De vez em quando na sua vida, Pedro, lembrava-se desse momento e agora, com 32 anos, recordava com carinho, ternura… e, talvez, ainda, Amor, daquela noite de Verão!

Debruçado sobre o gradeamento do paredão, que lhe segura o corpo, começa a sentir-se inquieto, relutante em permanecer mais tempo naquele espaço que lhe trazia tantas recordações. Afinal, tinha sido lá, naquele local, que se tinha apaixonado aos 15 anos. Talvez a única vez em que se apaixonou… Tinha estado ausente durante vários anos, senão invisível, pelo menos discreto, mantendo-se confortável no seu escrutínio, na sua impossibilidade ou liberdade de observar as pessoas à sua volta, do seu círculo. O seu grande Amor… Naquela altura ele era como uma ilha e apenas tinha sido descoberto por uma rapariga que habitou nele durante algum tempo. Não muito mas o tempo suficiente para criar laços, alguns complexamente carregados de sentimentos contraditórios, contudo, agradáveis pela forma intensa com os viveu.

Com o Sol a aproximar-se cada vez mais do mar, do momento em que ambos se tocam, como um beijo, onde não há força no Universo capaz de contrariar esse noivado que se torna num casamento, num convívio animado, para não dizer estridente, de curta duração mas que se renova a cada novo dia, sente-se incomodado, atormentado, com a capacidade que o mar tem de o hipnotizar. Sempre se sentiu atraído, como uma espécie de necessidade épica, e que parece infinitamente sedutora, tanto que fica, muitas vezes, impaciente com qualquer solicitação que o impeça de contemplar o ocaso e deixar vogar os seus pensamentos pela maré. Mas, mais do que em qualquer outro momento, essa ligação, embora se sinta atordoado pelo reflexo da luz intensa, nunca lhe pareceu tão perfeita! Excepto naquele instante, há 17 anos atrás…

5 comentários:

Fernando disse...

Profundo, gostei muito.

Fernando.

Anónimo disse...

Gostei do Blog :)
Beijinho

Anónimo disse...

Gostei do Blog :)
Beijinho

Unknown disse...

Fernando,

Obrigado pelo carinho, Amigo!!!

Adoro-te!

Unknown disse...

Maria,

É muito simpática e agradável! Já vi que também tem um blog idêntico, o qual, já fui espreitar. Gostei bastante!!!
Fique atenta pois conto, ainda esta semana, publicar uma nova história...

Beijinho