sexta-feira, 30 de julho de 2010

As palavras que sempre te direi

 
"Meu Amor,

Se alguma vez um homem sentiu o espírito dissolver-se e o desejo de se fundir com outra pessoa, contigo, então, esse homem, sou eu! Porque motivo isto aconteceu ou assim é, não consigo explicar por palavras. Podes até pensar ou tentar justificar que esta união que temos é desastrosa ou azarenta por mais razões do que te atreves, sequer, a relacionar. Mas não é! É simplesmente a vontade e o desejo comum de duas pessoas que se amam. Que se desejam como uma força magnética impossível de separar! Sei que tinhas uma vida inteira à tua frente que eu sei que destruí irreparavelmente. Perdoa-me, minha querida A…. Não, não perdoes! Não se pode pedir perdão por aquilo que não se lamenta; e eu não posso, como homem apaixonado que sou, como amante que quero ser, lamentar todos estes desejos, todos estes preciosos momentos que me são consentidos passar na tua companhia! Temos uma vida inteira à nossa frente para sermos felizes um com o outro.

Sempre pensei ser o tipo de homem que viveria uma grande e maravilhosa paixão! Um amor interminável! Por ser um homem de emoções, como sou, admito que esses estados não são meras fantasias escritas por pessoas que pretendiam empolar um acto físico, natural, mais do que aconselha a necessidade ou até a prudência. Na verdade, a minha moderação neste assunto, nunca foi um predicado pelo qual me congratulo.

Querida A…., a minha vida, tal como a tua, está completamente atrapalhada e desorganizada desde que percebi que estava perdidamente apaixonado por ti. Desde que começamos com os comentários acutilantes que só nós percebíamos, desde as conversas que iam crescendo em vontade e conteúdo e, também, desde as horas e horas passadas a aguardar notícias tuas. Desde que te vi, recordo-o como se fosse hoje, senti de imediato que queria que fosses minha!

Até aqui a minha vida tinha sido de satisfação pessoal, profissional, de serviço às pessoas e agrado e em ajudar o próximo; mas tudo isso agora é decerto menos do que era. Não é suficiente! Não, nunca mais será suficiente! Como posso explicá-lo a mim mesmo, quanto mais a ti? A ti, que és a luz do meu desejo?

Tenho-me também estimado por desfrutar de um entendimento instintivo das questões físicas, emocionais, quando, de facto, não possuía a mais pequena compreensão. Talvez tenha descoberto contigo o verdadeiro sentido dos sentimentos. Pensei que me conhecia bem – os meus hábitos sempre foram regulares e ordenados – mas hoje descubro que sou um estranho a mim mesmo, um desconhecido. Como eu era plácido e presumido…

Tudo em ti é excepcional para mim, querida A….! Sabes como dar prazer a alguém e a ti própria, qualidade rara nas pessoas. Sinto que teríamos muito a aprender, e a delirar, um com o outro, pois penso que nunca ninguém conseguirá dar tanto um ao outro como o faríamos os dois. Como eu te faria sentir! Talvez essa situação, não saberes o que é sentir isto, não te perturbe muito. Quando uma coisa destas é um facto aceite, não se sabe o que se perde… Talvez até hoje, até eu aparecer na tua vida, não te tenhas apercebido da importância que o prazer de uma mulher tem para um homem! Para mim!

Não deves sentir vergonha do que fazes, A….! Não deves sentir vergonha. Sobretudo daquilo que sentes e desejas por mim. De fazer comigo. E tenha a impressão – na verdade, trata-se de uma das coisas que eu muito admiro em ti – de que não sentirás. Não por isso. Talvez por outras coisas, mas não por isto. Estarei a enganar-me, a desejar o impossível? Acredito, penso sinceramente que não. Creio que deves perceber o que fazes. Ou estarei enganado que só vejo o que o meu coração deseja ver? Desejar e, por conseguinte, acreditar que possuis um entendimento físico que escapa a tantas mulheres durante a vida inteira?

Por vezes penso que tudo isto possa ser imprudente. E perigoso.

Conheci-te e gostei de imediato de ti, meu amor. Fiquei encantado pela tua tranquilidade, a tua paz interior, pela tua ternura. Não sei se consigo escrever sobre isto, querida A.…. Se as palavras ditas ou escritas alguma vez serão suficientes e grandiosas para expressarem aquilo de que eu gostei e gosto em ti! Quero descrever-te a ti, a quem desejo contar tudo, em que circunstâncias me encontro, partilhar todas as experiências diárias e pedir a tua opinião para tudo. Porque isso faz parte do meu desejo de estar contigo numa vida partilhada! Ainda que não fiques comigo não creio que, alguma vez, encontres alguém a quem ames tão profundamente, da forma como me amas a mim. Como eu te amo a ti! Mas sim que gostes de modo alegre, agradável ou confortável.

Ainda que eu encontre alguém, desejo encontrar-te nela. A todos os minutos do dia! E por essa razão, assim como pelo silêncio que carrego no peito, temo encontrar esse alguém. Não me está no sangue comprazer-me na mentira!

Pergunto a mim mesmo porque razão a paixão, tão nobre e deslumbrante sentimento, é, por vezes, tão absolutamente errada? Como pode uma coisa que se sente como autêntica, honesta e pura, que é como devo descrever os teus sentimentos por mim, e declaro que é amor, como o que eu sinto por ti, ser tão feia para causar sofrimento? E, mais intrigante ainda, não ter um desfecho feliz?

Não posso, não consigo, ainda que o quisesse, negar que te desejo conhecer de todas as formas possíveis que um homem deseja conhecer uma mulher! Então porquê… porque é que não é o suficiente? Porquê? Procuro uma resposta racional quando a emoção não é bem-vinda. Procuro uma resposta científica quando a ciência não é desejada.
Será exequível que uma ligação como a que iniciei contigo tenha proveniência numa ciência tão particular? Que tenha os seus próprios fundamentos ou leis? Poderemos um dia detectar essa coisa que cega, chamada paixão, e quantificá-la, poupando-nos assim a este tormento arrebatador?

E, porém, posso ambicionar que assim seja? Posso, na realidade, cobiçar este regozijo, que este segredo seja quantificado e, portanto, domesticado?

Talvez toda esta nossa história não passe de uma doce alucinação, um perigoso delírio que me esgota. Ou talvez não perceba nada do que escreva, mas apenas o que sinto! Porque não sou escritor, sou homem de sentimentos, que ouve os sentimentos, adormecido com a sua própria voz, tão perturbadora, que não deseja ouvir mais nada. Apenas a tua...

Para ti, minha querida A…."


Nota: Esta, ao contrário das outras, não é uma história de ficção. Esta carta de facto existiu. Foi escrita por alguém, e para alguém...

terça-feira, 6 de julho de 2010

Castelos no ar - Capítulo I


A trovoada atroadora faz-se ouvir, manifestando a sua presença intimidatória lá fora, enquanto os raios poderosos caem na água! Sente-se a vibração, arrastada pelo ar, nas paredes da casa. Daniela e Gonçalo interrompem um beijo fugaz quando, confortavelmente sentados no sofá, quase unidos num abraço, um relâmpago perdido rasgou o céu do lado de lá das janelas da sala seguido de um som rouco, intenso e prolongado.

Era um final de tarde de Outono, intensa e vigorosamente carregado da malfadada humidade, cinzenta no seu arco-íris de cor, fustigada pelo vento que chegava do mar, do Atlântico, e que trazia consigo o sabor salgado característico deste elemento da natureza. O vento chegava com a certeza reveladora, absoluta, do poder que exerce sobre a baía, plantada nas suas encostas, com casas de pedra cinzentas, frias, como se nunca tivessem estado expostas ao calor dourado do sol.

Dentro de uma dessas casas, pintada de cor âmbar e amarela no seu interior e aquecida pelo estalar da lenha seca dentro de uma lareira que ficava no lado oposto às grandes janelas de vidro, Daniela e Gonçalo tinham encontrado o seu refúgio. Pela primeira vez, depois de meses que se foram sucedendo a meses, de sonhos que se foram sucedendo a sonhos, de desespero em desespero, estavam a ver a vida acontecer. A vida de ambos estava, finalmente, a ser escrita em conjunto, como se de uma só história tratasse. A história que ambos tanto desejavam! Sentiam que tinham o mundo na mão! Sentiam que estavam a ver um novo dia amanhecer! Como se um novo luar, diferente, sem dúvida, de tão desejado, estivesse para chegar e o pudessem simplesmente ver em vez de o olhar apenas! Mas não, não era! Era apenas uma ilusão, um castelo no ar…

Gonçalo tinha ido viver para Vigo à procura de paz. Paz e tranquilidade que não encontrava em Braga, sua terra Natal, onde, na sucessão normal dos dias a sua vida andava coberta por uma nuvem cinzenta que, durante vários meses, não se precipitava nem ganhava furor repentino com o objectivo de se transformar numa verdadeira tempestade. A sua casa era das primeiras na cosmopolita zona do Parque das Avenidas, voltada para a baía, um prédio com as fachadas em pedra e enormes janelas de vidro, combinando em estilo e beleza com os restantes edifícios da zona envolvente. Mesmo em frente localiza-se a Marina e o Real Club Náutico de Vigo, com o seu belo edifício azul e branco. Ao lado, as piscinas fazem as delícias de quem as frequenta. A avenida, agora sem trânsito automóvel, com um passeio enorme, em pedra, e belos jardins com relvados cuidadosamente tratados, permite que se possa viver a cidade e aspecto depauperado ou duvidoso é, sem dúvida, aquilo que não se vê naquele pedaço de civilização. Uma das suas actividades preferida é, ao final da tarde, ficar à janela, a meditar profundamente, na mais memorável das experiências, a contemplar o pôr-do-sol, o crepúsculo e a noite a chegar num panorama inigualável, o mar, com as Ilhas Cíes bem lá ao fundo, já em pleno Atlântico mas, ainda assim, suficientemente perto para lhes poder adivinhar as formas., enquanto o astro rei esparge os seus últimos raios de luz. Lentamente os reflexos do astro rei vão desaparecendo no horizonte, criando no céu valsa na luminosidade feérica das cores. Num desses dias, diante de tamanha maravilha, movido por um impulso de admiração exclama: - Oh! Como é belo o pôr-do-sol! - Porque o final da tarde traz em si uma beleza juvenil que a noite, com toda a sua experiência, e o dia, ainda na sua infância, não podem oferecer. – É inigualavelmente belo! – Repete.

Ele, que desde que aqui se instalou, sentia os sonhos serem levados por aquelas águas como se estas, sem perdão, lhe cobrassem o facto de ele se arriscar vertiginosamente pelos seus sentimentos. Sentimentos que eram de ambos, de amor e bem-querer, e que se intensificaram pelo tempo mas, infelizmente, estavam ao sabor das ondas, sem essência, sem a inquietação natural e enfadonho, talvez, ainda magoado pela decisão de Daniela, numa incredulidade, ou, então, inexprimíveis, como se sentisse o corpo transformar-se, liquidificar-se, abrir-se, não desejando nada mais do que um beijo demorado, impregnado de energia!
Raros eram os dias em que Gonçalo não suspirava profundamente como se só um abraço pudesse dar-lhe alento. O tempo começava agora a adoçar-se, a acalmar à medida que os minutos iam, um a um, sendo mandados embora de forma apressada. Mais, até, do que ele compreenderia ou desejava que acontecesse. A luz suavizou-se um pouco e já existem sombras na rua provocadas pelos candeeiros antigos, de ferro, ainda de luz amarela e muito quente, que, entretanto, já tinham sido ligados. Como o calor, também os sonhos são levados pelo sol, pelo mar, pelas ondas, e a cor leva-a o céu. Gonçalo já não sonhava, aqui, e queria acreditar em tudo quanto a vida lhe deixara sem sentido.
No entanto, aquela final de tarde de Outono, deixara-o a novamente a pensa que, se o tempo não passar, era nos braços dela, junto a Daniela, que ele queria ficar…