"Meu Amor,
Se alguma vez um homem sentiu o espírito dissolver-se e o desejo de se fundir com outra pessoa, contigo, então, esse homem, sou eu! Porque motivo isto aconteceu ou assim é, não consigo explicar por palavras. Podes até pensar ou tentar justificar que esta união que temos é desastrosa ou azarenta por mais razões do que te atreves, sequer, a relacionar. Mas não é! É simplesmente a vontade e o desejo comum de duas pessoas que se amam. Que se desejam como uma força magnética impossível de separar! Sei que tinhas uma vida inteira à tua frente que eu sei que destruí irreparavelmente. Perdoa-me, minha querida A…. Não, não perdoes! Não se pode pedir perdão por aquilo que não se lamenta; e eu não posso, como homem apaixonado que sou, como amante que quero ser, lamentar todos estes desejos, todos estes preciosos momentos que me são consentidos passar na tua companhia! Temos uma vida inteira à nossa frente para sermos felizes um com o outro.
Sempre pensei ser o tipo de homem que viveria uma grande e maravilhosa paixão! Um amor interminável! Por ser um homem de emoções, como sou, admito que esses estados não são meras fantasias escritas por pessoas que pretendiam empolar um acto físico, natural, mais do que aconselha a necessidade ou até a prudência. Na verdade, a minha moderação neste assunto, nunca foi um predicado pelo qual me congratulo.
Querida A…., a minha vida, tal como a tua, está completamente atrapalhada e desorganizada desde que percebi que estava perdidamente apaixonado por ti. Desde que começamos com os comentários acutilantes que só nós percebíamos, desde as conversas que iam crescendo em vontade e conteúdo e, também, desde as horas e horas passadas a aguardar notícias tuas. Desde que te vi, recordo-o como se fosse hoje, senti de imediato que queria que fosses minha!
Até aqui a minha vida tinha sido de satisfação pessoal, profissional, de serviço às pessoas e agrado e em ajudar o próximo; mas tudo isso agora é decerto menos do que era. Não é suficiente! Não, nunca mais será suficiente! Como posso explicá-lo a mim mesmo, quanto mais a ti? A ti, que és a luz do meu desejo?
Tenho-me também estimado por desfrutar de um entendimento instintivo das questões físicas, emocionais, quando, de facto, não possuía a mais pequena compreensão. Talvez tenha descoberto contigo o verdadeiro sentido dos sentimentos. Pensei que me conhecia bem – os meus hábitos sempre foram regulares e ordenados – mas hoje descubro que sou um estranho a mim mesmo, um desconhecido. Como eu era plácido e presumido…
Tudo em ti é excepcional para mim, querida A….! Sabes como dar prazer a alguém e a ti própria, qualidade rara nas pessoas. Sinto que teríamos muito a aprender, e a delirar, um com o outro, pois penso que nunca ninguém conseguirá dar tanto um ao outro como o faríamos os dois. Como eu te faria sentir! Talvez essa situação, não saberes o que é sentir isto, não te perturbe muito. Quando uma coisa destas é um facto aceite, não se sabe o que se perde… Talvez até hoje, até eu aparecer na tua vida, não te tenhas apercebido da importância que o prazer de uma mulher tem para um homem! Para mim!
Não deves sentir vergonha do que fazes, A….! Não deves sentir vergonha. Sobretudo daquilo que sentes e desejas por mim. De fazer comigo. E tenha a impressão – na verdade, trata-se de uma das coisas que eu muito admiro em ti – de que não sentirás. Não por isso. Talvez por outras coisas, mas não por isto. Estarei a enganar-me, a desejar o impossível? Acredito, penso sinceramente que não. Creio que deves perceber o que fazes. Ou estarei enganado que só vejo o que o meu coração deseja ver? Desejar e, por conseguinte, acreditar que possuis um entendimento físico que escapa a tantas mulheres durante a vida inteira?
Por vezes penso que tudo isto possa ser imprudente. E perigoso.
Conheci-te e gostei de imediato de ti, meu amor. Fiquei encantado pela tua tranquilidade, a tua paz interior, pela tua ternura. Não sei se consigo escrever sobre isto, querida A.…. Se as palavras ditas ou escritas alguma vez serão suficientes e grandiosas para expressarem aquilo de que eu gostei e gosto em ti! Quero descrever-te a ti, a quem desejo contar tudo, em que circunstâncias me encontro, partilhar todas as experiências diárias e pedir a tua opinião para tudo. Porque isso faz parte do meu desejo de estar contigo numa vida partilhada! Ainda que não fiques comigo não creio que, alguma vez, encontres alguém a quem ames tão profundamente, da forma como me amas a mim. Como eu te amo a ti! Mas sim que gostes de modo alegre, agradável ou confortável.
Ainda que eu encontre alguém, desejo encontrar-te nela. A todos os minutos do dia! E por essa razão, assim como pelo silêncio que carrego no peito, temo encontrar esse alguém. Não me está no sangue comprazer-me na mentira!
Pergunto a mim mesmo porque razão a paixão, tão nobre e deslumbrante sentimento, é, por vezes, tão absolutamente errada? Como pode uma coisa que se sente como autêntica, honesta e pura, que é como devo descrever os teus sentimentos por mim, e declaro que é amor, como o que eu sinto por ti, ser tão feia para causar sofrimento? E, mais intrigante ainda, não ter um desfecho feliz?
Não posso, não consigo, ainda que o quisesse, negar que te desejo conhecer de todas as formas possíveis que um homem deseja conhecer uma mulher! Então porquê… porque é que não é o suficiente? Porquê? Procuro uma resposta racional quando a emoção não é bem-vinda. Procuro uma resposta científica quando a ciência não é desejada.
Será exequível que uma ligação como a que iniciei contigo tenha proveniência numa ciência tão particular? Que tenha os seus próprios fundamentos ou leis? Poderemos um dia detectar essa coisa que cega, chamada paixão, e quantificá-la, poupando-nos assim a este tormento arrebatador?
E, porém, posso ambicionar que assim seja? Posso, na realidade, cobiçar este regozijo, que este segredo seja quantificado e, portanto, domesticado?
Talvez toda esta nossa história não passe de uma doce alucinação, um perigoso delírio que me esgota. Ou talvez não perceba nada do que escreva, mas apenas o que sinto! Porque não sou escritor, sou homem de sentimentos, que ouve os sentimentos, adormecido com a sua própria voz, tão perturbadora, que não deseja ouvir mais nada. Apenas a tua...
Para ti, minha querida A…."
Nota: Esta, ao contrário das outras, não é uma história de ficção. Esta carta de facto existiu. Foi escrita por alguém, e para alguém...

